“Para quê serve uma ponte estaiada?” – O Retorno

Eu nasci, cresci, fui criado e amamentado no extremo sul da cidade de São Paulo, umas das regiões que registram os maiores índices de desigualdade social no Brasil.

Lá, falta de tudo um monte: saneamento básico, escolas de qualidade, policiamento efetivo e isento de corrupção, lazer, além de hospitais que ofereçam equipamentos de vanguarda na medicina do séc. XIX, como gaze, agulhas e siringas (coisa de primeiro mundo, não?). Com os transportes não seria diferente: a zona sul agoniza nos horários de pico. O volume indescritível de pessoas que evadem a região faz com que o trânsito se torne caótico e então se agrupe à situação da cidade igualmente caótica. Todavia, a metrópole se torna um inferno da mobilidade nas áreas centrais; na zona sul é diferente. As pessoas sequer conseguem sair dos bairros, que, apinhados de gente, clamam por alternativas ao velho transporte coletivo (leia-se “busão“).

E a tal da alternativa profetizada por gerações de políticos falastrões abençoou a fadigada zona sul de São Paulo com uma linha de metro. (Amém, irmãos!).
Queridos, quando era eu um menino moço, andava pelas ruas do globalmente famoso Capão Redondo (vide índice de mortalidade por armas de fogo no site da ONU) ouvia toda a sorte de comentários sobre o tal do metro. Que acabaria com o trânsito na região, bem como mudaria sua dinâmica econômica, além de curar todos os males da socidade (HA-HA-HA, segundo promessas de campanha).

Pois bem, a linha 5 do metro, batizada de Lilás (ui, que luxo, gentche) emergiu sobre a Avenida Carlos Caldeira Filho conectando (finalmente) o bairro de Santo Amaro ao Capão. Muito bom, muito bonito, eu até fui à inauguração da tal da linha que teria humildes cinco estações que proporcionariam um prazeroso passeio de pouco mais de sete minutos (pra você ver o TAMANHO da linha). Porém, lembro  eu(testemunha ocular do fato) que na festa de ganho de votos, quer dizer, de inauguração, um risonho e bem-intencionado político bradou à plenos pulmões: “Esse é só o começo da expansão do metro. Quando tivermos mais dinheiro, o metro Capão Redondo se expandirá até o centro de São Paulo “. “Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee“, gritou o povão (inclusive eu).

Sete anos depois, o metrozão (como meu avô gostava de chamar) tá lá firme e forte, mano! Assim como o caos na região – quero ver o povo gritar “eeeeeeeeeee” agora!? Por quê? Pois o danado do metro corre míseros seis quilômetros. Ou seja, se você trabalha no centrão de São Paulo (como eu) falta percorrer, pelo menos, uns 15 quilômetros. Em poucas palavras: os moderníssimos trens ligam nada à nada.

Sim, há planos de expansão lá pros lados da Chácara Klabin, mas antes disso houve a construção de uma tal de uma ponte, NA ZONA SUL, que custou nada mais, nada menos que R$ 250 milhões (R$ 100 milhões acima do orçamento inicial) e faz parte de um projeto que vai gastar pra lá de R$ 1,5 BILHÃO. Tô falando da “besteira estaiada” que tem não sei quantos metros de altura, pesa não sei quanto e é a ponte mais não-sei-o-que-lá da América Latina. Definitivamente, é a “coisa” mais bonita que eu já vi em termos de arquitetura, mas, na prática, funciona tão bem quanto as cotas raciais (vide piada pronta no site do governo federal – HA-HA-HA).

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Eduardo Neco

Queridos, sabendo do drama do transporte que é uma das sinas da Zona Sul de São Paulo, como posso eu (estudante de jornalismo que sou) olhar para a ponte Octávio Frias de Oliveira e dizer: “Mas que coisa mais linda, mano!”

Justamente a incoerência de construir uma ponte dessa magnitude em uma região que carece de expansão metroviária me motivou a produzir uma matéria. Sem contar, ainda, com o absurdo de priorizar a circulação de automóveis – a ponte não “aceita” caminhões e ônibus – em vez de dar subsídios para o transporte coletivo (mas esse é outro papo).

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Eduardo Neco

Avenida Marginal do Rio Pinheiros às 7h30 da manhã de uma sexta-feira do mês de outubro de 2008.

E lá fui eu estudar a tal da ponte…Li o Prospecto (relatório da obra) da Operação Urbana Consorciada Água Espraiada, de duzentas e poucas páginas, que relatava os gastos com cada parte do complexo de obras que visa desafogar o trânsito da região da Avenida Jornalista Roberto Marinho, interligando-a à Rodovia dos Imigrantes – dentro do projeto está a ponte estaiada.

Fucei por meses e meses o site da CET (troquei vários e-mails e telefonemas com o órgão também) atrás de números que apontassem se houve ou não melhora no trânsito da região, conversei com corretores de imóveis para saber se de fato a ponte acabou por valorizar os imóveis; infernizei a prefeitura de São Paulo atrás de dados sobre  geração de empregos nos arredores e, por fim, fui à ponte (como falar da danada sem caminhar por ela?).

Desci no ponto de ônibus próximo ao Real Parque, um mano me pediu um cigarro, eu disse que não tinha, ele me pediu dez reais, aí eu vi que era a hora de sair correndo, e corri.  Atravessei a marginal do Pinheiros no puro susto,  pulei num pé só o guard-rail e entrei na tal da ponte (com o coração na mão, é claro!).

Cheguei ao pé da ponte, olhei pros lados e comecei a andar sobre ela com a impressão de estar fazendo alguma coisa de errado…e conforme caminhava pude perceber a magnitude da obra. De fato, é imensa! Faltando uns trinta, quarenta metros para o meio da estaiada, ouvi uma sirene  e logo em seguida: “Onde o senhor pensa que vai?”, perguntou o guarda municipal de dentro da viatura. “Tô indo para a Roberto Marinho”, respondi. “Ô, garoto, cê num pode andar aqui não!”, alertou o policial. “Num posso?!”. “De jeito nenhum”, ironizou o homem de farda. “Mas como eu faço?”. “Volta pro lado que você estava”. “Mas eu já andei quase a metade…”. “Então entra aí na viatura que eu te levo até o outro lado”. Entrei e fui levado até a Jornalista Roberto Marinho. Droga, não consegui cruzar a tal da ponte.

Uma semana depois, voltei, só que dessa vez pelo lado da Roberto Marinho e tentei fazer o caminho contrário, sentido Real Parque. Andei cem metros e foi a mesma coisa de antes. Só que um Policial Militar me abordou e tive que refazer meu caminho de volta.

Mas por que cruzar a ponte? Tara? Transtorno Obsessivo Compulsivo? Apetite por subversão? De jeito nenhum, queridões. Dias antes, investigava se a obra da ponte estava em desacordo com uma lei municipal que obriga toda via pública a ter uma ciclovia e uma área reservada aos pedestres. Eu sabia que a ponte não tinha nada disso, mas como provar? Só indo até o local.

Descobri que a lei era posterior  a aprovação do projeto, mas a prefeitura me garantiu que pedestres estavam liberados. Meu gancho sobre a provável infração caiu. Mas constatei que pedestres também não são bem-vindos.

No fim das contas, minha tentativa de caminhada não teve muito efeito prático. Mas valeu pela apuração, pela vontade de ir lá e ver com os próprios olhos, sentir a matéria, perceber o cheiro do lugar e assim ter embasamento para responder à prováveis perguntas sobre a Octávio Frias. Pois, como dizem os grandes repórteres desse País, “Lugar de Jornalista é na RUA!”, ou na ponte (HA-HA-HA).

Mais um grande abraços aos meus queridões.

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3 Respostas to ““Para quê serve uma ponte estaiada?” – O Retorno”

  1. Rafael Marcelino Says:

    Poww meu! Pode andar lá não………. To sem programa pro fim de semana agora… Acho que vou jogar um fute no CEU do kassab/marta hehehehe

  2. Bruno Says:

    Uma matéria assaz admirável, meu bom.
    Realmente me acrescentou muita informação que eu desconhecia, sem esquecer da boa e velha dose de humor que tanto nos falta.
    Nos vemos domingão no niver da Aninha, man.

    beijocas.

  3. Luciana Says:

    Aiii amigo, como você é BOM! Coloca aqui a matéria do Acontece também!

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